sábado, 16 de outubro de 2010

O dia do Professor

Sempre tive uma admiração pela profissão de Professor. Só não imaginava que aos 55 anos de idade iria retornar aos bancos escolares, muito menos nas condições em que me encontro hoje: cega.
Meu primeiro dia de aula no Instituto Hélio Góes foi assustador. Fui acompanhada por minha filha Angélica e esta foi informada para me deixar sozinha. Fomos recepcionadas por minha professora Cristiane Carvalho, carinhosamente chamada de Cris.
Ao chegarmos na sala de aula, a professoa Cris levou-me até o lugar que eu passaria a ocupar, sentei-me ao lado de uma mulher que se apresentou como Socorro, mais conhecida como Help.
Há 5 anos frequento a mesma sala da Reabilitação, ainda sento no mesmo lugar, já passaram outras professoras e todas para mim têm um grande valor.
A maioria delas tem idade para ser minha filha, em alguns momentos elas já se pareceram minha mãe, ou, irmã mais velha, com seus conselhos, carinho, atenção. Não trata-se de uma atenção em exagero, nem um carinho de protecionismo castrador, mas sim, uma comunhão de alegria ao ver que cada dia damos um passo rumo a nossa independência, dentro dos limites que a cegueira nos reserva.
Parabéns à Direção, Coordenação e Equipe de Professores do INSTITUTO HÉLIO GÓES - SOCIEDADE DE ASSISTÊNCIA AOS CEGOS.
Vocês são DEZ!!

Fátima Silva
15.10.10

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Entrevista para TV Unifor

A Biblioteca Braille da Sociedade de Assistência aos Cegos com seu cenário alegre, colorido e descontraído foi o local escolhido pela Escritora Fátima Silva para a entrevista com a repórter Daniele da TV Unifor.
Hoje, 15, foram gravadas as primeiras imagens da entrevista que contou com a participação do seu neto Yuri da Silva e do Prof. Paulo Roberto.
Em breve postaremos a data da exibição da entrevista.




terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os mundos diferentes das crianças


DO OUTRO LADO DA AVENIDA

A rua é escura, deserta, sem calçamento, é mais um bairro da periferia.

A menininha não tem mais que dez anos, magrinha, cabelos desengrenhados, seu vestido está sujo e nos pés suas sandálias, estão se descolando. Ela está mais uma vez sentada na calçada, procura na escuridão se vê outras crianças, pois além de está faminta não pode entrar em casa.

A menina olha para o céu estrelado deita na calçada e começa a sonhar. Como estava com fome, sonhou com um enorme sorvete ou quem sabe um sanduíche acompanhado de um refrigerante. Passou as mãozinhas sobre seu pobre vestido e sentiu que usava uma roupa muito bonita, uma saia rodada e calçava sapatos e meias. Ah! E que linda era sua casa, estava toda iluminada, e em seu quarto tinha uma cama macia, os lençóis eram perfumados.

A menina assustada acordou de seu sonho quando ouviu o grito de sua mãe:

- Márcia onde você está? Pode entrar o meu cliente já saiu!

Rapidamente a menininha se levantou, olhou de um lado para outro e viu lá no fim do quarteirão o homem que era cliente de sua mãe. Entrou em casa, viu a cama da mãe em desordem, mas não entendia nada, só sabia que a mãe estava se vestindo para sair, ouviu quando ela falou novamente:

- Vou até o boteco do "seu" João comprar alguma coisa para você comer, depois se deite, pois tenho que sair de novo.

A mulher era ainda jovem sua aparência era desagradável; usava uma saia muito curta e a blusa exibia um decote bastante exagerado, seu rosto ainda tinha marcas de uma maquiagem feita às pressas com produtos de má qualidade.

A menininha ligou uma TV que dava mostras que estava a ponto de não mais funcionar, as figuras do programa estavam distorcidas.

A mulher foi rápida e voltou com uma sacola que jogou no colo da filha. Um pão passado com margarina e uma caixa com suco artificial. Lá de fora a mulher ainda recomendou:

- Vá dormir logo, desligue a TV!

A menininha comeu o lanche, depois deitou na rede num canto do quartinho, seu lençol estava rasgado, jogou a caixa do suco ali mesmo dentro do quarto e dormiu.

Não sabia que horas eram se era sonho ou realidade, mas ouviu que sua mãe chamava alto um homem, sua voz não era normal, parece que tinha bebido.

Pela manhã acordou e sentou na rede e viu a mãe deitada quase nua, coberta apenas com um pedaço de pano que fazia de lençol. A menina abriu a janela com cuidado e olhou para fora, alguns vizinhos já conversavam no meio da rua e como era seu costume pulou a janela e foi brincar com seus amiguinhos. A criançada corria em brincadeiras inocentes onde se misturavam com cães vira latas, vendedores ambulantes.

As crianças correram até uma avenida muito larga onde naquele horário transitavam carros, ônibus, homens em bicicletas. Do outro lado da avenida havia vários condomínios de apartamentos luxuosos, com guaritas e cercas elétricas.

Uma menininha acordou e correu para a janela de seu quarto. O apartamento era num condomínio fechado e lá do alto ela podia ver que as crianças da "favela”, (era assim que seus pais se referiam aquelas casinhas do outro lado da avenida), já corriam de um lado para outro. Algumas iam para um sinal de trânsito e pediam trocados aos motoristas.

Lá do alto a menininha olhava com inveja, pois logo mais a empregada entraria em seu quarto para averiguar se ela já tinha tomado banho, escovado os dentes, penteado os cabelos. Ela tinha dez anos.

A empregada entrou e falou:

- O que você está ainda olhando pela janela? Já está em cima da hora do transporte escolar chegar. Vamos rápido! Seus pais já estão na mesa, Márcia.

A menininha entrou no transporte escolar e começou a sonhar. Viu a si mesmo correndo na beira da avenida pedindo trocados, chupando laranja sentada numa esquina. Sua casa era tão pequenininha que mal dava para colocar as camas de seus pais, que dormiam abraçados.

Seu pai sairia de manhã para trabalhar daria um beijo na sua mãe e a colocaria no colo afagando seus cabelos e dizendo:

- Não chore querida, mas o papai tem que ir trabalhar! Logo mais a noite quero encontrar minhas duas princesas bem bonitas.

Acordou do seu sonho por um toque de celular, era o do motorista, o homem falou alguma coisa para sua auxiliar e continuou seu trajeto.

A moça olhou para Márcia e disse:

- Seu pai ligou Márcia, ele vai viajar a negócios, vamos deixá-la na casa de sua avó.

À noite a menininha jantou sozinha, numa imensa mesa posta só para ela.

Sua avó estava indisposta e, por isso permaneceu trancada no quarto. Sua mãe havia saído para passear com algumas amigas.

Márcia depois do jantar foi para seu quarto, ligou a TV e foi para a janela, com raiva puxou as cortinas. Dali só era possível ver o muro alto da mansão.

A menininha falou em voz alta:

- Que ódio, aqui é pior do que o apartamento. Lá pelo menos eu fico olhando meus "amiguinhos", principalmente a menininha dos cabelos assanhados, de roupa suja e, que às vezes corre até de pés descalços!

Fátima Silva
12.10.10

sábado, 9 de outubro de 2010

As estações do amor

Ao vermos a exuberância das flores
Sentimos que a Primavera
Esbanja beleza e aroma.
O perfume das flores nos embriaga,
Pois somos adolescentes.
O amor chega aos nossos corações
Como brisa matutina,
E as macias pétalas das rosas
Enfeitam nossos sonhos
De alegria e prazer.

No clima quente do Verão
Sentimos o calor dos nossos abraços.
O Sol aquece e arde
A paixão que invade nossos corações.
Somos jovens,
Nossos sonhos não têm limites
Voam tão alto quanto a águia
Ou, rasantes quanto a abelha.

Hoje, somos adultos.
Vieram as chuvas de Inverno
Trazendo com elas,
trovões e relâmpagos.
Enxurradas nos levaram
Às situações geladas, frias.
Mas encontramos uma fogueira
Que aqueceu
Nossos corações tão frios.

As folhas amareladas prenunciam
Que estamos no Outono.
Chegamos à idade madura.
Demos frutos e nossas sementes
Multiplicaram-se.
As mágoas, os rancores, os ciúmes,
Não impediu que o nosso amor,
Marcado pelo relógio do tempo.
Marque apenas:
ETERNO!


Fátima Silva
Escrito em: 01/06/09
Obs.: Meu primeiro texto poético.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

1º Congresso Muito Especial no Ceará... Fazendo possível acreditar na tão sonhada Inclusão Social



Aconteceu aqui em Fortaleza o 1º Congresso Muito Especial de Tecnologia Assistiva e Inclusão Social das Pessoas com Deficiência no Ceará nos dias 27, 28, 29 e 30 de setembro no Marina Park Hotel.
A realização do Congresso foi para reforçar a importância do tema e apresentar as inovações na área da Tecnologia Assistiva, além de debater sobre novas possibilidades que facilitam e contribuem para inclusão social da pessoa com deficiência.
Os convidados puderam apreciar um show de abertura (27) da cantora Mayara Rios, cega, ex-participante do Programa Ídolos - 2010 exibido pela Rede Record. Um show que abrilhantou a noite daqueles ali presentes, seguido do coquetel de boas-vindas aos participantes.
Durante estes dias a programação que iniciava às 8hs da manhã, contava com mesas temáticas, palestras e debates com temas voltados à inclusão social das pessoas com deficiência, inclusão profissional, tecnologia assistiva e inovação, acessibilidade, atividades da vida diária, como lidar com as pessoas com deficiência.
O evento contou com palestras de renomados profissionais da área, como Romeu Kazumi Sassaki, atuante no campo da deficiência há 50 anos, conselheiro do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência e membro do Comitê Brasileiro de Tecnologia Assistiva da Secretaria de Direitos Humanos.
Com certeza saímos com um conhecimento muito maior do que é ser deficiente, do papel que exercemos na sociedade, das dificuldades e necessidades que cada deficiente, de acordo com sua deficiência, precisa para que sua vida venha a ser no mínimo digna.


"Deficiente não é a pessoa que apresenta diferenças físicas, mentais ou sensoriais, deficiente é qualquer pessoa que não está apta para desempenhar função fora do seu conhecimento e de seu alcance.
Deficiência não é doença; pode ser uma sequela da doença.
A deficiência não modifica o ser em sua essência, apenas o limita em alguns aspectos. Com apoio, determinação e vontade, todos temos condições de transformar a limitação em potencial de adaptação ao meio."


Texto extraído da apostila
Como Lidar com as Pessoas com Deficiência

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Cego corta verdura? Cozinha?


Muitas pessoas já me fizeram perguntas do tipo: Sua mãe cozinha, e ela não tem medo de se queimar? E corta verdura?
Já! Ela já teve queimaduras, antes da perda da visão várias vezes e depois duas vezes. Até porque acidentes desse tipo são corriqueiros na vida de uma dona de casa, não é mesmo? E tem mais, ninguém corta tão fininho rodelas de tomate e cebola quanto ela.
Essa é a maior prova de como é distante o mundo da cegueira para quem não convive próximo a ele, ou até mesmo nele.
Mas eu também já fiz essa pergunta um dia, e de fato eu sei o quanto é assustador.
Ainda lembro quando seu professor de mobilidade, da Reabilitação da SAC, (na época) Prof. Marcelo passou uma tarefa de casa para minha mãe: CORTAR UM FRANGO.
Foi um alvoroço, lembro-me que fiquei com tanto medo dela se cortar, me escondi atrás da parede da cozinha sem querer encarar, ou acreditar que aquela cena iria acontecer. Minha mãe cega prestes a cortar um frango. Mas eu precisava acreditar que ela era capaz.
E ela foi capaz!
Assim, com esses desafios de voltar a cuidar do seu lar, dentro das suas possibilidades, ela retomou a vontade de viver, saindo do ócio que a perda da visão trouxe para sua vida.

Este é o desafio na vida de quatro jovens deficientes visuais, entre a idade de 16 a 24 anos. Elas iniciaram um curso sobre atividades domésticas, em especial, as tarefas na cozinha no Centro de Atendimento Clínico Educacional (Cace) no município de Horizonte - Ce.
Conforme reportagem no Jornal Diário do Nordeste (05/10), na primeira aula, as jovens conheceram os utensílios de cozinha e prepararam uma salada de frutas.
Dessa forma os centros de reabilitações às pessoas cegas trazem a tão sonhada autonomia e independência para suas vidas.
Por isso, é muito importante o trabalho dessas instituições, pois o maior intuito é fazer com que pessoas com necessidades especiais sintam-se úteis, válidas, eficientes e mostrar tanto para elas, quanto à sociedade que a perda de um membro, ou de um sentido, não é o fim da vida e sim um novo começo.

Foto: Diário do Nordeste


Fonte: Diário do Nordeste
Confira a reportagem completa no site:


Por Angélica Braga

sábado, 2 de outubro de 2010

Urna Eletrônica

Sinto certa nostalgia ao falar sobre eleições. Lembro do tempo do título com foto e com assinatura, do presidente da mesa da seção, localizada no verso do título que confirmava o voto.
Pessoas vestiam sua melhor roupa para cumprir seu dever de cidadão. O dia de eleição tinha um ar diferente dos demais, havia um clima de festa misturado ao sentimento de civismo.
Crianças não entendiam muito bem o porque do ar grave dos adultos e tratavam de brincar o máximo possível.
As filas eram enormes, algumas seções varavam a madrugada. As informações eram poucas, transmitidas ao público através do rádio e jornais, matuninos ou vespertinos, vendidos nas bancas ou pelos meninos que circulavam pelo centro da cidade, gritando as principais notícias.
Não se falava em comunismo ou socialismo em voz alta. As mulheres votavam, porém não discutiam política.
Eleições tinha cheiro de charuto, paletó de linho e chapéu, assunto exclusivo para homens.
Saudades da contagem manual, recontagem de votos, urnas anuladas.
Eleições 2010.
Voto digital, um minuto.
Domingo antes da meia-noite, provavelmente, o Brasil inteiro já saiba o nome do(a) Presidente, governadores, senadores e deputados. Ou, ainda, se haverá 2º turno. Através das notícias vinculadas de imediato na Internet, jornais e plantões de comunicação na TV, etc.
Saudades...
Fátima Silva

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...